FEIRA edição 01

Quando conversamos pela primeira vez sobre um projeto de revista, descobrimos que compartilhávamos uma urgência: o desejo premente de uma publicação independente sobre comida no Rio de Janeiro. Queríamos abraçar a ideia, mas podíamos? Seria possível realizar algo dessa magnitude tendo apenas o desejo como combustível e parquíssimos recursos? A razão nos dizia que não, mas fomos em frente. Não sabíamos como duas pessoas dariam conta do trabalho que seria gestar uma revista. Não tínhamos ideia de como pagaríamos os custos disso. Mas sabíamos como era a revista que queríamos: uma publicação que se descolasse da espetacularização da gastronomia que tem prevalecido na mídia brasileira – e mundial, sejamos honestos – e abordasse a comida a partir de uma perspectiva profunda e humanista, que alcançasse os muitos atores da cadeia de produção de alimentos.

Concordamos que a edição de estreia precisava tratar de um tema caro a nós dois e logo chegamos ao seu mote: peixe. Saímos em campo em busca de inspiração e de respostas, especialmente no estado do Rio de Janeiro, que é nosso território, mas sem nos limitar a ele. Durante a caminhada, juntou-se a nós o fotógrafo Samuel Antonini, que nos acompanhou em boa parte das incursões que povoam estas páginas, registrando tudo a partir de seu olhar sensível e acurado. Mais adiante, ganhamos a companhia da designer Maria Fontenelle, que assumiu o projeto gráfico da revista, cujo fio condutor foi a busca por uma linguagem que, embora moderna, remetesse ao fazer artesanal.

Juntos, conseguimos tornar viável o que parecia improvável e hoje apresentamos a edição inaugural de FEIRA, que traduz os primeiros passos de um trabalho em evolução – que, para se consolidar, naturalmente há de englobar mais vozes e pontos de vista além dos nossos. Conversamos longamente com cozinheiros e pescadores, na tentativa de entender por que é tão difícil comer bom peixe numa cidade litorânea como a nossa. Aprendemos sobre o cultivo de algas marinhas com os produtores do D’Alga Aquicultura Urbana. Visitamos o Oteque, novo restaurante de Alberto Landgraf no Rio de Janeiro, cujo cardápio é, em grande parte, dedicado a pescados e frutos do mar. Fomos a Cancale e Saint Méloir des Ondes, na Bretanha, e relatamos nosso encontro com a cozinha corsária do chef Olivier Roellinger. Realizamos uma degustação de sardinhas em conserva, produto tão subestimado por aqui, e divulgamos nossas impressões sobre o que provamos, propondo ainda algumas receitas. Compartilhamos a leitura de Gente do Mar, obra em que Ricardo Maranhão dá visibilidade às comunidades de pesca que povoam a costa brasileira. Contamos ainda com a colaboração da jornalista Maria Canabal, que, em matéria ilustrada pelo traço marcante de Heitor Menezes, fala sobre bacalhau a partir de uma perspectiva histórica, sem deixar de mirar o futuro. Desde já nos propomos o desafio de dar continuidade a este projeto e fazer de FEIRA uma publicação semestral.

Constance Escobar e Thiago Nasser, setembro de 2018